Por Alécia Louzada
A Ortopedia Funcional dos Maxilares (OFM) auxilia e trata crianças com maloclusões e distúrbios dos sono como ronco, apneia e bruxismo a partir dos 2 anos e meio de idade.
A síndrome da apnéia obstrutiva do sono(SAOS) em crianças é um distúrbio respiratório que acontece durante o sono caracterizado por obstrução parcial ou total da ventilação associada com dessaturação de oxigênio, hipercapnia e sintomas que incluem ronco habitual, dificuldade respiratória e problemas comportamentais diurnos, tais como déficit de atenção, hiperatividade e déficit cognitivo.
Os distúrbios respiratórios do sono, em crianças,tem sido reconhecidos como um processo patológico importante e contínuo, que pode incluir: ronco,obstrução das vias aéreas superiores e eventos apnêicos. A prevalência tem sido estimada em 12,1% e o pico de incidência ocorre entre 3-6 anos de idade. A relação entre respiração bucal e morfologia facial também tem sido discutida na literatura.
Para o diagnóstico da SAOS, a polissonografia (PSG) é reconhecida como exame padrão ouro. Em crianças, o registro de um único evento de apnéia por hora já caracteriza a síndrome da apnéia obstrutiva do sono.
Nem sempre a avaliação clínica sugestiva de apnéia apresenta resultado polissonográfico positivo para apnéia, mas pode apontar características de anormalidade, tais como esforço respiratório anormal, medido diretamente pela pressão esofágica ou acompanhado por microdespertares ou despertares indicado pelo eletroencefalograma. Assim os distúrbios respiratórios do sono incluem a Síndrome da apnéia obstrutiva e a Síndrome do Aumento de Resistência das Vias Aéreas Superiores.
Avaliações ortopédicas em crianças com apnéia obstrutiva do sono encontram características semelhantes: mordidas cruzadas unilaterais, mordidas abertas, classe II, respiração bucal e incompetência labial. Essas crianças, apresentam estreitamento do espaço aéreo epifaríngeo, desenvolvimento maxilar deficiente e retrusão mandibular. Diversos tratamentos ortopédicos funcionais têm sido propostos para correção das diferentes maloclusões.Os distúrbios respiratórios do sono tem com grande frequência relação com essas maloclusões.
As más-oclusões que têm sido associadas com respiração bucal em crianças são:
Mordida cruzada
A mordida cruzada lateral funcional caracteriza- se por atresia maxilar, instabilidade oclusal e, portanto, desvio de posição mandibular para um dos lados para possibilitar a função mastigatória, estabelecendo-se o cruzamento da mordida.
Há uma relação entre a largura do arco superior, respiração bucal e posição de língua baixa associada com adenóide.
O papel da respiração nasal no desenvolvimento maxilar e abaixamento da abóbada é muito importante. Quando ocorrem obstruções à respiração nasal, amaxila fica atrésica.
Mordida aberta anterior
A etiologia da mordida aberta anterior é discutida e os fatores associados são os fatores predisponentes associados a outros, como hábitos não nutritivos, função anormal da língua, hipertrofia de amígdalas e adenoides que levariam a uma respiração bucal. A mordida aberta esquelética caracteriza-se por incompetência labial e características cefalométricas comuns às encontradas em indivíduos com apnéia obstrutiva do sono e respiradores bucais: face longa e aumento da altura facial anterior inferior (distância queixo-nariz).
Retrognatismo
O retrognatismo, comumente encontrado nos indivíduos classe II de Angle, caracteriza-se por um relacionamento distal da mandíbula em relação à maxila. A língua fica posteriorizada, tornando-se um importante fator de obstrução à passagem de ar durante o sono nessa região retro-lingual. Os retrognatas podem apresentar ausência de selamento labial e interposição labial inferior entre os dentes.
A Ortopedia Funcional dos Maxilares (OFM) é uma especialidade da Odontologia que tem por objetivo monitorar o desenvolvimento da oclusão, eliminando os impedimentos à harmonia de desenvolvimento e corrigindo os desvios da função oclusal, através de recursos próprios que podem ser aparelhos em dentes decíduos ou permanentes, ajustes oclusais por desgastes ou ajustes oclusais por acréscimo de resinas em dentes decíduos.
Também visa o equilíbrio estético e normalização das funções: mastigação, deglutição, respiração e fonação.
A OFM atua redimensionando o crescimento e desenvolvimento maxilo-mandibular e face, através de estímulos aplicados com direção e velocidade adequados.
De uma maneira simplificada, os princípios de ação das técnicas ortopédicas funcionais incluem mudanças de tônus muscular na face, através de uma mudança na relação dinâmica da mandíbula em relação à maxila e mudança na postura de língua. Essas mudanças de posição e movimento são captadas pelos proprioceptores (fusos neuro-musculares, órgãos tendinosos, receptores articulares). Essa percepção é conduzida até o sistema nervoso central e a resposta inclui novas mudanças de tônus muscular, portanto, ativação e desativação dos mecanismos de deposição e reabsorção óssea ou remodelação.
O objetivo final é que a maxila e mandíbula estejam com seus perímetros compatíveis e com condições de contatos oclusais simultâneos e simétricos e dimensões verticais iguais em ambos os lados da boca. Os movimentos mandibulares, durante as funções devem ser livres, sem mudança de direção. Essas características permitem que uma mastigação bilateral e alternada ocorra dentro de condições de equilíbrio neuromuscular e, portanto,a harmonia de desenvolvimento pode se manter.
A base do diagnóstico é o exame clínico da criança complementado por exames radiográficos, estudos cefalométricos, análise de modelos que relacionam o plano oclusal com planos faciais: plano de Camper, plano sagital mediano e plano frontal.
A hipótese de que a alteração do modo respiratório pode alterar tanto crescimento da maxila, que permanece atrésica, como da mandíbula que sofre rotação de crescimento e postura da língua, modificando o padrão de crescimento facial e tonicidade ,muscular da face, deve ser bastante valorizada. Assim como, essas relações com os distúrbios respiratórios do sono.
É fundamental que os profissionais se saúde que lidam com os distúrbios respiratórios do sono em crianças e adultos estejam atentos também às características faciais e maxilo mandibulares que possam estar contribuindo com os processos de obstrução ou que possam impedir a recuperação total do indivíduo.
É preciso incluir no diagnóstico, a observação cuidadosa de sinais e sintomas que possam sugerir distúrbios respiratórios do sono, para tratar devidamente esses pacientes, melhorando não só o seu prognóstico, mas principalmente evitando os danos que esses distúrbios podem provocar de imediato e a longo prazo. Todos os fatores associados devem ser diagnosticados e tratados por equipe multidisciplinar.
Quanto antes o tratamento maiores chances de cura.
Alécia Silva Longo Louzada é especialista em Dor Orofacial e DTM pelo Conselho Federal de Odontologia, membro da Sociedade Brasileira para Estudo da Dor, membro da Sociedade Internacional para Estudo da Dor (IASP), membro da Sociedade Brasileira de Cefaléia, Especialista em Ortopedia Funcional dos maxilares, Especialista em Disfunção Temporo Mandibular e dor Orofacial Mestre em Ortodontia.