09.10.2019
O Ministério de Ensino da PIBCI promoveu no dia 29 de setembro, um painel sobre o Setembro Amarelo, que é uma campanha de conscientização sobre o suicídio. Essa campanha é feita em todo o país, e a PIBCI, vendo a necessidade de abordar o tema, convidou a Dr. Débora Sena, Psiquiatra, Drª Iza Karla, Psicóloga e o Pr. Zildo Nascimento. O painel abordou a depressão, que tem levado muitas pessoas ao suicídio. A apresentadora foi a Ministra de Ensino Sônia Mara Costa.
Transcrição do Painel Setembro Amarelo
Min. Sônia Mara Costa – Nós entendemos importante esses momentos aqui com a igreja para abordar esse tema que nós escutamos às vezes de forma bem superficial através das mídias, que é a questão da depressão e do suicídio. Nós não fazemos ideia do quão perto isso está de nós. Vamos ouvir um pouco o Pr. Zildo, a Drª Débora - Psiquiatra e a Drª Iza – Psicóloga. Drª Débora, toda pessoa que comete suicídio tem, necessariamente, algum transtorno mental?
Drª Débora Sena – O que temos de dado com relação a suicídio? Os estudos de necropsia psicológica, que são estudos que vão na família de quem comete o suicídio, pergunta-se: “essa pessoa fazia tratamento psiquiátrico?” “Essa pessoa fazia tratamento psicológico?” Esses estudos mostram que de 97 a 98% das pessoas que cometeram suicídio faziam algum tipo de tratamento psiquiátrico ou psicológico.
Então nós temos que a maioria das pessoas que cometem suicídio tem algum transtorno mental. O caso que aconteceu recentemente de um homem que se jogou de um viaduto na Serra, ele tinha histórico de suicídio. Depois do acontecido, foram verificar que ele fazia tratamento para depressão. Os dados trazidos agora se baseiam em dados como esses.
Min. Sônia Mara Costa – O que você está falando associado à transtorno, e você falou da depressão, eu estava lendo que a depressão é um indicativo muito forte pra questão do suicídio. Eu queria que você falasse um pouco sobre o que é depressão, e se de fato todo depressivo tem um pensamento suicida? Ou não?
Drª Débora – Nós entendemos a depressão como uma doença. Eu acho importante fazer essa desconstrução de associações com questões de demônio, porque isso atrapalha muito a busca ao tratamento. Tanto que temos tido muitos casos de suicídios de pastores. Tem um livro “Suicídio de Pastores”, que foi escrito por um pastor. Então, depressão é uma doença, e como toda doença, temos um grupo de sinais e sintomas. Quais seriam os da depressão? Geralmente afeta o humor, que pode estar triste, irritado. E também afeta a vontade. A pessoa perde a vontade de fazer coisas que antes eram prazerosas. Pode afetar o sono, pode afetar o apetite, tanto para mais quanto para menos, pode afetar os planos do futuro, porque a pessoa acaba perdendo a vontade de viver, então não faz sentido a pessoa investir no futuro. Pode afetar os relacionamentos, essa pessoa pode ficar mais isolada, não querer conversar. E pode afetar o pensamento, e aí é nessa hora que pode vir o pensamento de morte.
E às vezes não vem assim “eu vou cometer suicídio, eu vou me jogar da ponte”. As vezes vem o pensamento “eu queria morrer”. Eu costumo falar que é o “suicídio gospel”: “Deus podia me levar”. As vezes não vem como um pensamento de se matar pelos métodos mais conhecidos, mas sim como um desejo de morte, e aí vem o desejo de Deus levar, adoecer, da vida acabar. Esse tipo de pensamento já tem que fazer acender uma luz vermelha, e daí nós já temos que pensar em uma depressão, mas para fechar a sua resposta, nem toda depressão tem pensamento suicida. O pensamente de morte vem quando já temos uma depressão de moderada a grave.
Min. Sônia Mara Costa – Drª Iza, qual o tipo de terapia indicado para o depressivo?
Drª Iza Karla – Na verdade nós não temos uma terapia ideal. Toda terapia vai oferecer ao sujeito o acolhimento, uma oportunidade desse sujeito falar desse sofrimento, dessa angústia. Mas vai se o sujeito que vai identificar com a terapia de acordo com seu estilo de vida, suas crenças. Nós não temos como dizer qual a terapia indicada, mas toda terapia vai trazer bem estar. Ele vai se ressignificar. Entretanto, isso vai depender muito desse sujeito. Nós temos situações que nós reencaminhamos para uma outra terapia com outra abordagem, mas isso aí vai ficar muito mais à escolha da história desse sujeito, como ele se identifica, como ele se visualizou nessa terapia.
Min. Sônia Mara Costa – Continuando na pergunta, eu gostaria de perguntar, quando o psiquiatra indica a terapia para uma pessoa que está com depressão, no atendimento que você faz com esse depressivo, você consegue detectar na conversa, no que ele fala, se ele traz com ele esse sentimento de morte?
Drª Iza Karla – Na nossa entrevista, na anamnese, no primeiro atendimento, nós ficamos muito atentos a isso. A primeira abordagem com o paciente nós tentamos ao máximo visualizar e identificar isso, porque é um fator de extrema importância. Se ele traz algum comportamento suicida, algum pensamento, nós já precisamos ali, traçar algum planejamento com esse paciente. Então assim, no primeiro atendimento já ficamos muito atentos e é uma das perguntas que nós fazemos.
Min. Sônia Mara Costa – Pr. Zildo, como a igreja vê a questão da depressão, e o que a Bíblia fala sobre isso?
Pr. Zildo – Há não muito tempo atrás, a igreja via a depressão, a maioria dos crentes viam a depressão como algo demoníaco. Mas já a algum tempo pra cá, muitas pessoas, muitos pastores, muitas igrejas têm tido um conhecimento mais aprofundado com relação a depressão, e como a Drª Débora falou, tem desconstruído essa ideia de que a depressão é por força demoníaca.
A depressão nós já conhecemos e já entendemos que é uma doença e precisa ser tratada dessa forma. No entanto, eu creio, que o diabo pode se aproveitar dessas ocasiões, como aproveita outras também, mas essas ocasiões para oprimir mais ainda a pessoa que está deprimida. Isso acontece. Agora o que nós vemos na Bíblia é que muitas pessoas passaram por esses momentos difíceis, deprimidos. Algumas pessoas passaram talvez não por uma depressão severa, talvez por uma depressão leve, ou até uma tristeza muito profunda, e que levaram essas pessoas a ter, inclusive, o sentimento de morte, como a Drª Débora falou nesse “suicídio gospel”, e pediram a morte a Deus. Noemi por exemplo, foi uma dessas que teve uma tristeza profunda, tanto que ela pede para não ser mais chamada de Noemi, mas de Mara (amarga), em função da sua amargura, que a levou a um sentimento muito grande de tristeza. Jeremias, por exemplo, foi um profeta que passou por esse estado também. O próprio Davi, nós vemos vários relatos dele que retratam uma tristeza profunda, muito grande.
Mas o caso clássico, que nós tratamos muito e falamos dele, é do caso do Profeta Elias. Ele chegou a pedir a Deus a morte, ficou isolado, teve alguns sintomas, algumas evidências da depressão. Ficou isolado, se afastou das pessoas, perdeu relacionamentos, se afastou do próprio Deus, e lá na caverna, no seu isolamento, no caminho da caverna, ele pede também a morte.
Então hoje a igreja vê dessa forma, a depressão como uma doença também. Mas eu creio que também há a opressão nesses casos.
Min. Sônia Mara Costa – Iza, só medicamento, sem a terapia, funciona esse tratamento, ou ele está incompleto?
Drª Iza Karla – Na verdade, isso já foi discutido por muito tempo, mas eu acredito que hoje, a Psicologia e a Psiquiatria tem andado juntas. Nós conseguimos hoje essa conversa com o psiquiatra, esse contato. Na verdade, o que nós sabemos: em alguns casos, sem a medicação, é impossível tratar. Em alguns casos a medicação é primordial. Precisa da medicação. Tanto é que nós da psicologia encaminhamos muito para a psiquiatria.
O que nós tomamos cuidado é que tem que ser medicado pelo profissional da Psiquiatria, que estudou para isso. Hoje nós vemos muita banalização. As pessoas tomam o remédio que o amigo toma e assim sucessivamente.
Mas na pergunta que você fez, se tem como fazer terapia sem medicação? O ideal é que as duas estejam alinhadas. Em algumas coisas a terapia consegue dar conta sozinha? Sim. Mas em alguns momentos, sem a medicação, não é possível fazer a terapia. O exemplo de um depressivo: se ele não tiver a medicação, não consegue nem sair de casa pra chegar ao consultório de terapia. Então, precisar andar junto.
Min. Sônia Mara Costa – Drª Débora, a depressão e esse sentimento de morte, é mais evidente, ou acontece mais em qual faixa etária, ou ele alcança todas as faixas etárias?
Drª Débora Sena – Na verdade, pode alcançar todas as faixas etárias. Hoje em dia nós vemos em criança. Muitas vezes eu vejo na criança, muito embora o quadro na criança seja diferente. A criança fica mais respondona, fica mais irritada, quer ficar mais no quarto, às vezes tem uma queda no rendimento escolar. O quadro é mais diferente do adulto e do adolescente, que é mais marcado por uma tristeza, por essa questão do humor, mas eu posso ver em todas as idades.
Agora, em relação ao suicídio, a população que mais comete suicídio são homens acima de 60 anos. Se pegarmos um gráfico “quem morre por suicídio?” – o grupo mais representativo são os homens acima de 60 anos. E daí, o grupo em que o suicídio mais cresce são entre os jovens. Nas últimas décadas, esse número quadruplicou.
Entre os jovens hoje, é a segunda causa de morte no Brasil. Mas por quê? Porque jovem vai morrer ou de acidente, ou de homicídio, ou de suicídio. Então, no grupo dos jovens, é uma coisa que chama muita atenção. No caso dos homens mais velhos, eu tenho outros fatores: Infarto, câncer, que são muito mais frequentes. As causas cardiovasculares são mais frequentes, então chama menos atenção, mas em relação à depressão, pode acometer a qualquer um, e nós entendemos que a criança pode tentar o suicídio a partir dos 8 anos, que é quando ela entende o conceito de morte. Parece uma coisa incomum, mas eu já peguei duas tentativas de suicídios de crianças de 8 e 9 anos de idade, e a partir de 10, 11 é muito mais frequente, mas qualquer idade, tanto pode ter depressão quanto pode ter tentativa de suicídio.
Min. Sônia Mara Costa – E como que os pais, nós dentro de casa, até agora houve o caso de um suicídio em Guarapari, com uma criança de 10 anos, e a mãe disse que nunca havia percebido essa característica nele, que havia algum problema. Como nós pais podemos estar observando nossos filhos? Quais os fatores que vão nos mostrar que o filho não está bem, que está depressivo ou com algum problema. Quais os fatores que chamam atenção no dia a dia?
Drª Débora Sena – Em relação a essa população específica, de crianças e adolescentes, uma das primeiras coisas é o isolamento. A criança começa a não mais querer ficar ali no meio da casa, da família, quer ficar no quarto, no celular, começa com um discurso de que “eu não vou conseguir”, “eu não sirvo pra nada”, “eu nunca consigo mesmo”, “Não sei por quê eu estou aqui”, “ninguém me ama”. Começa um discurso envolvendo o senso de valor. E daí pode vir uma queda de rendimento na escola, uma alteração do comportamento, um isolamento dos amigos que costumava ter, um discurso envolvendo violência.
E uma coisa que eu queria chamar os pais à atenção, é essa questão do quarto em si. Hoje se fala muito em intimidade, privacidade. Eu não sou muito nova não, mas não tinha muito isso de ficar sozinha no quarto quando era criança e adolescente. Acho que peguei uma geração anterior ao celular, mas hoje em dia, o que eu queria chamar atenção para os pais, é em relação ao momento de intimidade, para nós não abrirmos mão de questões que são inegociáveis, que é a questão da mesa, da família, do diálogo. Lar, vem de lareira, que é intimidade, e a intimidade tem que estar na família, e não dentro de um quarto, no caso de um adolescente, de uma criança. Dentro do quarto é do casal, não do adolescente ou da criança, volto a falar. Intimidade em família tem que ter uma refeição, nem que seja uma vez por semana, tem que ter diálogo, tem que saber o que está acontecendo com o filho, tem que saber o que está acontecendo com o adolescente, tem que saber o que ele vê na internet, o que ele faz no celular, e daí acho que isso é uma das grandes fórmulas de nós prevenirmos esse adoecimento.
Eu fiz uma aula sobre automutilação recentemente em adolescente, daí eu digitei no Google “automutilação” para ter umas imagens, e aí logo abaixo aparecia como, com automutilação, cometer suicídio. E aí tinha a imagem: Se você se cortar assim (mostra o pulso, percorrendo da palma da mão até a metade do antebraço), é porque você quer morrer. Se cortar assim (mostra o dedo percorrendo de um lado a outro do pulso), é porque você não quer morrer. Estava lá, nas imagens do Google, uma coisa de muito fácil acesso. Então, nós temos que saber o que os nossos filhos estão vendo, os grupos que eles frequentam nas redes sociais, e o que acontece na cabecinha deles.
Min. Sônia Mara Costa – Pr. Zildo, tem uma pergunta que o senhor já respondeu em parte, que diz que acontece até hoje na cabeça dos cristãos, com relação à depressão. O senhor estava falando no início, que associamos só ao espiritual. Mas a pergunta é assim: o senhor entende que existe uma relação entre o quadro clínico do depressivo com sentimentos de morte e a vida espiritual da pessoa que enfrenta a depressão?
Pr. Zildo – Acredito que não, porque o cristão, mesmo temente a Deus, ele pode ter esse sentimento, pode ter depressão, inclusive, o sentimento suicida. Até porque nós entendemos, como já foi dito, que a depressão é uma doença, não é algo espiritual. Como eu disse antes, eu acredito até que o diabo usa o momento para oprimir, e quando há essa opressão aí sim precisa ver, tanto a questão terapêutica, psicológica, psiquiátrica, mas também a parte espiritual. Nesses casos. É lógico que, em todos os casos, independente de ter cunho espiritual ou não, a oração sempre será importante, em todos os casos. Mas não existe uma associação de estar deprimido com a questão espiritual.
Min. Sônia Mara Costa – Esse mês de setembro é o mês de prevenção com relação ao suicídio. Em uma palavra mais prática, o que é essa prevenção ao suicídio, o que está sendo feito em todas as esferas para essa prevenção ao suicídio?
Deª Iza Karla – Hoje o suicídio se tornou uma questão de saúde pública. Todos estão visualizando isso, pois se tornou algo gritante. Mas o que nós podemos fazer e o que estamos fazendo? Uma coisa muito boa é esse momento: falar sobre o suicídio. Porque existe um mito de que falar induz as pessoas. O que tem que ser feito é falar da maneira correta, aqui, sem preconceito, sem rotulação, com uma questão de acolhimento, de enxergar esse sujeito.
Nós estamos vivendo um momento onde as pessoas estão vivendo muito isoladas. Então, quando nós saímos do nosso quarto, como a Drª Débora disse, quando saímos da nossa zona de conforto, e começamos a interagir com o outro, visualizar, enxergar, tocar o outro, ter empatia pelo outro, isso já é um movimento. Mas nós entendemos que algo muito importante que está sendo feito é falar sobre o assunto. Antes não se falava. Era um mito, ninguém tocava nesse assunto. A mídia tinha muita dificuldade de divulgar, que ainda continua tendo uma dificuldade, as pessoas tem medo, porque os estudos dizem que se não divulgar da forma correta, ela pode, não motivar, mas ela pode, talvez a palavra certa seria incentivar, ou fazer o sujeito encontrar com a dor dele. A fala é o melhor meio de prevenção.
Min. Sônia Mara Costa – Drª Débora, como nós, que somos leigos no assunto, temos o conhecimento ler, de ouvir falar, mas não temos os conhecimentos técnicos a respeito dessas questões. Como nós podemos ajudar alguém do nosso lado, perceber se essa pessoa traz com ela, o que podemos fazer de prático para ajudar essa pessoa?
Drª Débora Sena – Falando um pouco do que a Iza estava falando, o ouvir o outro é terapêutico. Então, a partir do momento que a pessoa tem a coragem de chegar pra você e abrir sobre questões que a tem feito sofrer, não podemos perder a oportunidade.
Eu costumo falar que é mais difícil desnudar a alma e falar do que realmente incomoda do que pra nós mulheres, ir ao ginecologista e passar pelo exame. Porque isso já é por si só, um ato de coragem. Então nós precisamos acolher essa pessoa que vem num ato de coragem e tentar dar um direcionamento: “olha, eu conheço uma pessoa, uma psicóloga, eu conheço um pastor”. As vezes pedir ajuda do pastor vai ser o primeiro passo para o pastor dar esse direcionamento: “Eu conheço um psiquiatra, eu posso ir com você à consulta, eu acho que nós precisamos de ajuda nesses casos”. Passar a dar esse direcionamento, se colocando no lugar da pessoa, com empatia, como a Iza falou, de querer ajudar. Eu acho que essa é uma forma que as pessoas tem de se ajudar.
E daí, isso me remete ao que a Bíblia fala, complementando o que ela falou de relacionamento, de se isolar, aquele versículo: “se alegrar com os que se alegram, chorar com os que choram”. Ter essa questão da comunhão e dos relacionamentos nos possibilita ajudar mais, porque se eu tenho empatia com sua dor, se eu choro com você, a chance de uma pessoa adoecer, a pessoa que está vindo de um luto, porque o luto não é depressão. Então a pessoa que está vindo de um luto, de um momento difícil, ela tem esse relacionamento mais profundo, de ter uma pessoa que acolhe. Eu acho que essa é a forma que nós temos de ajudar.
Min. Sônia Mara Costa – Devemos estar mais atento a quem está do nosso lado. É um tempo de tanta individualidade, é tão difícil perceber o outro, e as vezes quando percebemos, fazemos com um olhar crítico. Devemos estar mais aberto às pessoas. É uma forma de nós prevenirmos e ajudar. Ainda com a Drª Débora, para fechar um diagnóstico de depressão, quando escutamos assim: “estou com tristeza!”. Pode não ser depressão e só uma simples tristeza do qual não se sabe falar. Quais são os sintomas? Só tristeza, tristeza e angústia. Como se fecha esse diagnóstico?
Drª Débora Sena – A primeira coisa a saber é desde quando. Se está sentindo a dois dias, não tem como fechar diagnóstico de depressão. Ah, já tem três semanas, ok, já daria pra fechar, porque nós falamos aí de duas a três semanas para se ter um diagnóstico. “Ah, teve motivo? Sim, eu perdi meu filho”. Então não é depressão, é luto. Então eu preciso saber a quanto tempo e qual o motivo, e depois eu preciso saber tudo o que vem junto com essa tristeza. Se for o caso de um adolescente, por exemplo: “a eu terminei com meu namorado”. Tem quanto tempo? A tem duas semanas. E daí o que você sente além da tristeza? Ah, eu sinto raiva porque aconteceu isso. Eu tenho que ver o que vem junto. Se for depressão, tem que alterar uma das coisas daquela que falamos, de vontade, de pensamento, de sono, de apetite, de produtividade no trabalho ou na escola. Eu tenho que alterar outros domínios também.
Então, não basta ter só uma tristeza. A maioria dos casos de depressão mesmo não tem um motivo, então nós precisamos realmente ver o que está acontecendo, a quanto tempo tem, para se poder pensar em um diagnóstico. Não dá pra falar certinho, porque na clínica nós não fazemos assim. Nós avaliamos caso a caso, mas basicamente eu preciso avaliar essas questões que eu coloquei.
Min. Sônia Mara Costa – Pr. Zildo, nós temos ouvido que muitos pastores, muitos líderes têm cometido suicídio. Agora, recentemente, no Sul, nós vimos uma reportagem de um pastor que cometeu suicídio. O que o senhor acha que tem levado tantos pastores, tantos líderes, que nós pressupomos ter um equilíbrio maior, por cuidar de tantas pessoas, a cometer suicídio?
Pr. Zildo – Esse assunto tem sido tema de alguns debates recentes. Na verdade, esse assunto entre os pastores já está acontecendo a muito tempo, mas as notícias desses eventos tem sido divulgadas de um tempo pra cá. Esse assunto ainda está sendo estudado. Mas eu acredito que tenha acontecido por alguns fatores, e um deles é que a carga pastoral se torna uma carga pesada, que poucas pessoas conseguem compreender, a não ser o próprio pastor, e as vezes ele não consegue lidar com essa carga. Até porque, o ministério pastoral, embora se fale de muito relacionamento, acaba sendo um ministério meio solitário e aí dificulta também de falar sobre sentimentos. E o pastor, por ser o pastor, tem dificuldade de falar dos seus sentimentos, por achar que vão pensar que ele é um fraco, que vão pensar se é um líder ao falar sobre o seu sentimento de fraqueza, de fragilidade, o que as pessoas vão pensar sobre isso. Então ele se isola, guarda isso, fica isso com ele, e aí vem o stress muito grande que passa, vem algumas dificuldades que ele passa nos relacionamentos, algumas pessoas que, por não compreender, acabam atacando a vida pastoral, e aí isso vai se somando. Como ele tem a dificuldade de expressar isso, acumula isso dentro da sua alma, e aí vem o stress, a depressão, e acaba uns não resistindo como nós temos notícia, cometendo o suicídio, inclusive esse rapaz que nós ficamos sabendo na semana passada, tinha 30 anos, e ele tinha escrito a um tempo atrás sobre esse mesmo assunto, de um pastor que se suicidou nos Estados Unidos. E ele falou que entende essa carga pesada. Naquele momento, de alguma forma, ele já estava expressando, ou tentando expressar aquilo que estava na sua alma.