Por Alécia Louzada
O bruxismo é uma atividade involuntária parafuncional, rítmica e espasmódica do sistema mastigatório produzida por contrações rítmicas ou tônicas do masseter e de outros músculos mandibulares e caracterizada pelo ato de ranger ou apertar os dentes tanto durante o período diurno como noturno. O bruxismo pode ocorrer de forma consciente, ou inconscientemente.
O bruxismo em crianças tem se tornado uma preocupação crescente nos últimos anos devido ao seu impacto negativo na qualidade de vida e também por ser considerado importante fator de risco para disfunções temporo-mandibulares e dores orofaciais.
Os sinais e sintomas mais frequentes são os desgastes oclusais e/ou incisais, destruição das estruturas de suporte, hipersensibilidade pulpar, mobilidade dentária, fratura de cúspides e restaurações, dores e distúrbios nas articulações temporomandibulares (ATM), hipertrofia do masseter e cefaléia na infância. O bruxismo pode também estar associado a parasomnias (fenômenos que ocorrem exclusivamente durante o sono), caracterizando-se por graus diferentes de excitação, como enurese noturna, falas durante o sono e sono agitado.
É considerado a atividade parafuncional mais danosa para o sistema estomatognático. Durante a infância, o bruxismo é mais severo nas crianças em idade pré-escolar devido às características estruturais e funcionais dos dentes decíduos, embora também apareça em crianças maiores e na dentição permanente.
Estudos longitudinais têm indicado entre 35 e 90% das crianças com este distúrbio evoluindo com sintomas na idade adulta. Em bebês, o bruxismo pode ser observado logo após a erupção dos incisivos decíduos por volta de um ano de idade.
O bruxismo apresenta etiologia multifatorial que pode ser explicada por fatores locais, sistêmicos, psicológicos, ocupacionais e hereditários.
Dentre os fatores locais, pôde-se observar maloclusões, traumatismo oclusal, contato prematuro, reabsorção radicular, presença de cálculo dental, cistos dentígeros, dentes perdidos, excesso de material restaurador e tensão muscular. Há evidências de que o bruxismo em crianças pequenas pode ser consequência da imaturidade do sistema mastigatório neuromuscular.
Sistemicamente deficiências nutricionais e vitamínicas, alergias, também distúrbios gastrintestinais, desordens endócrinas, paralisia cerebral, Síndrome de Down e deficiência mental podem estar relacionadas ao desenvolvimento do hábito. O bruxismo apresenta incidência de 60% em crianças alérgicas, isto é, três vezes maior do que entre crianças não alérgicas.
Tensão emocional, problemas familiares, estado de ansiedade, depressão, medo, crianças em fase de auto-afirmação, podem atuar como fatores de origem psicológica e ocupacional para o desencadeamento desta condição. O bruxismo é considerado uma resposta de escape, uma vez que a cavidade bucal possui um forte potencial afetivo, além de ser um local privilegiado para a expressão de impulsos.
Com relação aos fatores hereditários, um estudo sobre predisposição genética confirmou que pais que possuíam o hábito na infância freqüentemente apresentam filhos que apertam ou rangem os dentes. Mais recentemente, um estudo relatou o comportamento de neurotransmissores, principalmente a L-dopamina, no desenvolvimento de bruxismo.
O bruxismo infantil pode ser caracterizado pela presença de desgastes da superfície dentária, desconfortos musculares e articulares, atuando como coadjuvante na progressão da doença periodontal destrutiva e contribuindo para o desenvolvimento de falsa Classe III, além de acelerar a rizólise de dentes decíduos e provocar alterações na cronologia de erupção dos dentes permanentes. Descreve-se, também, a possibilidade de o bruxismo favorecer o apinhamento dental.
Como o bruxismo é um reflexo subconsciente não controlado e leve, na maioria das vezes é desconhecido ou despercebido pelos pacientes e seus familiares. Assim, torna-se necessário estabelecer o diagnóstico precoce das possíveis alterações que poderão ocorrer, antes que o ciclo vicioso resulte em dano grave e permanente.
É de fundamental importância realizar a anamnese completa da criança em ambiente tranqüilo, contando com a participação dos pais para obter informações sobre a história médica geral, hábitos, queixa de dor, relacionamento familiar e social, e avaliação do perfil psicológico da criança. O exame clínico minucioso, com palpação, ausculta, avaliação de tecidos moles e da língua, verificação da movimentação mandibular, análise da oclusão, bem como os exames radiográficos são importantes no diagnóstico preciso das alterações do sistema estomatognático.
É de fundamental importância o diagnóstico diferencial para que o bruxismo não seja confundido com outros movimentos faciais do sono.
Concluímos então, que o bruxismo na infância é uma disfunção que vem crescendo em frequência na sociedade moderna. A carência de atendimento pode acarretar danos severos na cavidade bucal e na musculatura facial.
O bruxismo é de importante diagnostico e deve ser realizado por profissional especializado. O tratamento precoce em crianças visa manter a perspectiva de controle e prevenção de danos aos componentes do sistema mastigatório, proporcionando bem-estar e conforto à criança de forma eficaz e duradoura.
Frase do câncer
Quanto ao câncer, espero muito que a cura total um dia seja possível e que a tão esperada fórmula seja descoberta!
Contamos sim hoje com uma grande evolução em estudos e tratamentos, mas a prevenção ainda é o que temos de melhor.
“Prevenir é um ato de amor...
...Com você, com seu corpo e com todos que te amam”.
Alécia Silva Longo Louzada é especialista em Dor Orofacial e DTM pelo Conselho Federal de Odontologia, membro da Sociedade Brasileira para Estudo da Dor, membro da Sociedade Internacional para Estudo da Dor (IASP), membro da Sociedade Brasileira de Cefaléia, Especialista em Ortopedia Funcional dos maxilares, Especialista em Disfunção Temporo Mandibular e dor Orofacial Mestre em Ortodontia.