22.07.2020
Hugo Sampaio - Ministro da Juventude
31 de dezembro de 2019, provavelmente você estava em pelo menos duas situações, ou você estava na Igreja, no tão esperado dia do culto da virada, ou vigília, enfim o nome agora não é o mais importante, mas você estava lá, ou você fez uma opção por estar com sua família em outro local. Independente do lugar que você estava pelo menos uma coisa eu posso quase afirmar com muita certeza: você não esperava passar por uma pandemia que já chega a quase cinco meses completos.
Em menos de três meses do ano, já estávamos correndo atrás de mecanismos para que a Igreja pudesse ter suas celebrações mantidas, apesar do isolamento social, por vezes imposto, e em alguns casos até fiscalizado, para que não houvesse qualquer tipo de aglomeração. De uma hora para outra você se viu sem emprego ou trabalho, ou trabalhando demais em casa, no agora famoso home office, e precisou se ajustar e matar a saudade de quem ama por uma tela talvez um pouco menor que 8 polegadas.
Essa talvez fosse as questões menos complexas de se ajustar, mas conforme o vírus foi se espalhando pelo nosso país, a cada momento uma notícia triste chegava, ora pelas redes sociais, ora pelo telefone, mas a face mais triste e temerosa destes dias estava a cada dia mais perto de nós. As despedidas começaram a chegar, e com um agravante quase que inconsolável, o fato de não poder nos despedir de forma digna, honrosa e amorosa dos nossos queridos. Pastores, missionários, médicos, enfermeiros, homens, mulheres, crianças e jovens... Pais e Mães... Até a minha mãe, foram se despedindo sem um abraço, sem um olhar mais próximos, isolados em seus leitos. Como manter a esperança em tempos assim?
Estamos vivendo um tempo confuso, cheio de informações, e desinformações, cheio de maldade, corrupção que se aproveita de uma fragilidade mundial, gente inescrupulosa que olhou só pro seu bolso, para seus próprios interesses, temos dúvidas a respeito de tudo, nada parece ser por acaso, até mesmo essa pandemia.
Será que é possível ver a tão famosa luz no fim do túnel? Será que, literalmente, vamos respirar o ar puro, ao invés do ar reprimido de nossas máscaras? São muitas as perguntas. Como encontrar esperança neste tempo? Como é possível perceber a ação de Deus num tempo em que Ele parece que se calou... Mas será mesmo que Deus está calado? Inerte ou distante?
Eu receio que meu local de fala possa estar afetado, minha família foi vítima deste mal, mas creio que a partir da dor é possível fazer uma reflexão, mesmo que tocando numa ferida ainda em cicatrização, é possível observar o quanto podemos ser a esperança na vida de alguém, o quanto as igrejas estão levando a esperança para as pessoas mesmo sem poder abrir de forma natural os seus espaços para culto.
Este momento, por mais duro que esteja sendo, fez, ou tem feito a Igreja se avaliar. Tenho uma crença de que Deus não está cobrando ou disciplinando a Igreja, mas vejo o quanto ele está nos ensinando a ser diferentes. A sairmos das nossas zonas de conforto, a viver o evangelho além das quatro grandiosas paredes de nossos templos, e também nos ensinando a observar o tempo que estamos inseridos, pois de alguma forma paramos no tempo, e o que era “ferramenta do inferno” para alguns agora se tornou a nossa única forma de comunicação e culto. E apesar de algumas igrejas já retornarem aos cultos presenciais, não será possível mais pensar num contexto de culto sem que haja o uso da internet e uma boa qualidade de transmissão.
Creio também que Deus tem mexido com a Igreja dele em detrimento daquilo que se refere aos recursos, em nenhum outro momento talvez, a igreja passou a viver tão somente pela fé em seus atos, assim como em nenhum outro momento as pessoas passaram a entender a importância de serem dizimistas, não apenas por uma questão medo (e vai entender de que?), mas por entender que a missão da Igreja agora também passa por sua fidelidade e que a obra do Senhor não pode parar e precisa continuar.
Por isso eu creio também que a esperança brota desse movimento de retorno da Igreja aos seus princípios. Vejo a esperança brotar quando inúmeros vídeos, conteúdos e mensagens passaram a surgir nas redes sociais não apenas de um grupo seleto, mas em poder ver os pastores, incluindo os mais antigos, compartilhando das suas experiências, da Palavra e da vida como nunca antes.
Vejo a esperança onde o número incontável de pessoas que se despertou para fazer algo pelo próximo, por aqueles que precisam ficar em suas casas, por conta de suas fragilidades. Vejo a esperança quando pessoas recebem uma porção de alimentos que vão fazer daqueles dias menos sofridos, sem fome porque alguém foi lá e os entregou uma cesta de alimentos (apesar de alguns ainda insistirem com as fotos num momento desse), mas pelo menos a fome não chega mais ali naquele lar, pelo menos durante um período e crendo que ele pode ser abreviado nos próximos dias.
Vejo esperança no consolo recebido em meio a dor, estamos de alguma forma mais solidários, o luto é coletivo, é de todos, e quem faz parte de uma Igreja, pode ter a benção de ser levado pelo colo em momentos como esse. Esse movimento também me enche de esperança, e viabiliza um caminho para que possamos estar cada vez mais próximos uns dos outros. Percebendo o quanto somos iguais, o quanto que o sofrimento de alguma forma nos torna mais humano, mais acessível e sensível a realidade do próximo. Passamos de alguma forma a nos sentir igual ao próximo, e a esperança surge quando podemos ver essa possibilidade tornando-se realidade mesmo que devagar e com tanta dor envolvida.
A esperança não precisa de uma realidade perfeita para acontecer, ela precisa de sinais, dos mais poderosos ou dos mínimos que for. Para “esperar do verbo esperançar” é preciso de gente, de gente de verdade, que sonha com dias mais alegres, com menos despedidas inesperadas, com mais e mais pessoas curadas... Curadas fisicamente, emocionalmente e curadas espiritualmente também. São pessoas assim carregadas de esperança que serão capazes de viralizar daquilo que elas estão plenas. Não vamos perder a esperança, apesar dos momentos difíceis temos uma certeza, a esperança nunca acaba ou morre, a nossa esperança é Jesus.
Por Hugo Sampaio
Ministro da Juventude
Em homenagem a minha mãe Marilza Pereira Sampaio e a todos que sentem a partida de algum ente querido.
Paz.